Deparei-me pensando em Marli depois de quase um ano sem ouvir qualquer de seus singles. Algum de vocês acredita que já se passaram 10 anos?!
Quem acompanha a carreira dessa feirense percebe mudanças gritantes entre seus álbuns. Mas confesso que nunca mais senti aquela lufada de genialidade que experimentei ao vê-la lamber sua ferida back in 2008.
Digam que é saudosismo de minha parte, digam que Marli is over, mas, amando ou odiando-lhe, ela deixou uma marca que não pode ser ignorada.
Prontos para se inebriar?
Coisa que pouca gente sabe é que Marli foi quem firmou a linhagem de vídeos conceituais antes bem, bem incipiente.
Pra começar, veja a foto que ilustra o post. Janelle Monáe claramente se inspira em Marli, só reafirmando a influência de Marli no cenário musical.
Hoje tem gente que assiste vídeo de cantora pop do cenário mainstream e acha super originais a crítica social e a elaboração de vídeos em curta-metragem para os singles. Pois Marli há meia década atrás já produzia clipes à la Lynch, escancarando as escaras sociais e as vicissitudes das relações. Bertulina, pra mim, é o melhor exemplo disso:
Cada um tem o direito de divagar sobre as intenções de Marli com esse vídeo. Mas a mim parece muito mais que a história de uma mulher sob violência, da fragilidade da inocência. Pra mim conta a história da própria Arte. A gestação da idéia, a revolução de pensamentos e os desafios dessa expressão, o aborto. Mas a Arte não morre, sempre estará "lá, naquele lugar, esperando até você chegar".
Em O Amor está no Ar, Marli resolve ir adiante, ao cruzar a linha do comum mostrando a sexualidade como algo normal e aceitável, algo que deve ser abraçado como parte de nossa natureza. De uma forma que nenhum artista tivesse feito antes!
"O túnio do amor virou um esgoto", ela diz. Sim!, porque é o que de fato acontece (ao menos no campo das idéias).
E prova da visão revolucionária de Marli é que ela não só se atém à metra, mas faz questão de elaborar o vídeo em estética almodovariana. Nada mais adequado: Marli, a outra inocente e monocromática Bertulina, agora é uma mulher lasciva, sexual.
Por este motivo Marli é incompreendida por muitos. Ela simplesmente nos dilacera, mostra-nos o grande elefante rosa na sala que insistimos em ignorar. Aí, "chocando-nos" - e nesse sentido é simplesmente incrível a forma como mataforiza com os ovos "chocando" em um homem -, Marli prova seu ponto nos fazendo pensar sobre nossa condição.
Aqui ela também discute a Arte. Na postagem sobre Hair, discutimos como Lady GaGa usa o piano, como se o piano per se fosse Música de verdade. Aí Marli vem, toca piano no vídeo, e você. não. ouve. o. piano. Marli renega o clássico. Não o despreza, apenas renega, porque o som do computador também pode ser arte, só depende do seu veículo.
Com o tempo, a obra de Marli foi penetrando no universo noir. Mas esse provavelmente será o tema de nossa próxima postagem sobre Marli.

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